segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sem título

O conceito de casa desmoronou-se. O sentimento de pertença dissipou-se. É uma destruição lenta contudo consistente. As paredes são cada vez mais finas e frágeis. Os grãos de areia vão pousando vagarosamente, sem cessar no chão, delineando as divisões. As janelas apresentam manchas do tempo, de negligência, numa ou outra é possível ver alguns sinais de desgaste, umas lascas aqui e ali. A porta de grande envergadura, madeira escurecida e baça, abre-se ruidosamente após o rodar da maçaneta. O interior vazio, respirar torna- se ensurdecedor. Lá fora, em redor, tudo é árido, os pássaros e as plantas não se avistam a largas léguas de distância, deixaram de procurar vida por estas bandas.
E a casa a desaparecer com o embate do vento, da chuva e do sol; a sua história diluída, extinta, apagada. Nada.
(d Trintona)

sábado, 6 de agosto de 2011

 

Não querendo ser subversiva, contudo estou a ficar um pouco cansada de ser alvo de chacota num contexto político nacional/internacional autista e vicioso. Infelizmente a relação entre este clip e o meu estado de espirito é cada vez mais estreita - manifestando-se com maior frequência do que gostaria....
  


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tentas, de longe, dizer que estás aqui.
Com peso triste caminha na rua o Outono.
O meu coração debruça-se à janela
a ver pessoas e carros, e as folhas caindo.

Mastigo esta solidão
como quando era pequeno e jantava
diante dos pais zangados:
devagar, ausente
(Musa Irregular, Fernando Assis Pacheco)

domingo, 24 de julho de 2011

A grande realização parece incompleta,
mas a sua utilidade nunca se esgota.
A grande plenitude parece vazia,
mas a sua utilidade nunca empobrece.

A grande rectidão parece flectida
A grande habilidade parece desajeitada
A grande eloquência parece gaguejar.

A agitação vence o frio
A serenidade vence o calor.
A limpidez da serenidade é a perfeição do mundo.
                                              (Tao Te King, Lao Tse)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Reflexo

E ela continua a ouvir uma voz ensurdecedora vinda do mais íntimo do seu ser: fugir, tentar outra vez, é isso… depois o mundo nas tuas mãos. Olhando-se no espelho, expressando desespero e angustia pergunta “quando cessa a constante insatisfação”, a busca contínua torna-se exaustiva - pensa; “estou cansada” e repete mais duas vezes esta expressão, inclina a cabeça até os olhos fixarem o chão de madeira irregular.
Desloca as suas mãos com a pele ressequida e pequenos golpes nos dedos em direcção à face como se não a reconhece-se, no sentido de identificar o ser que estava frente ao espelho; a respiração torna-se ofegante. Permanece imóvel, procura apaziguar o tumulto de sentimentos revisitados, tenta aceitar o seu reflexo, tenta aceitar-se. Passam 5, 10, 15, 20 minutos. Desvia-se, com uma espécie de resignação, inclinando cada vez menos esporadicamente a cabeça para o espelho.
Este cenário repete-se por semanas, meses, anos… E vai saltitando de registo para registo, sem assentar, sem construir, as desculpas estão mais que gastas contudo ainda encaixam num puzzle cheio de inconsistências…     
(d Trintona)

quinta-feira, 30 de junho de 2011


Os Navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto os navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
Partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.


Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram-se nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
              (As palavras interditas, Eugénio de Andrade)