terça-feira, 26 de março de 2013
o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.
as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.
entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.
hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.
(Amor, José Luís Peixoto)
terça-feira, 19 de março de 2013
Carta
Quando leres esta carta já terás 17
anos. Muitos te perguntarão que queres ser, que curso escolher. Todos te dirão
o seu parecer e poucos serão sábios. Provavelmente sentir-te-ás encurralado,
que ainda tens muito para ver e viver.
Segue o teu instinto, viaja antes de
te matriculares na faculdade, se for esse o teu projecto. Arranja um emprego de
verão, conhece outras culturas, outros mundos. Quando souberes o que queres
fazer na tua vida então investe. Constrói um caminho que te orgulhes. Nos dias
que correm não há empregos eternos, nem profissões certas. Se gostares do
que fazes darás o teu melhor e conseguirás o que queres.
A facilidade nem sempre anda de braço dado com
o sucesso. Não te tornes cínico ou ríspido perante as dificuldades da vida, ela
também te sorri.
Terei sempre orgulho em ti e estarei
sempre ao teu lado. Por vezes discordarei das tuas decisões, a ansiedade também
pode ser paralisante. Vacilo por já não poder suster as tuas quedas, anseio proteger-te
do mundo disforme.
Dir-me-ás que já és crescido, que te
eduquei para percorreres o teu percurso com sensatez e audácia. Embora concorde,
continuarei a preocupar-me em silêncio. O amor é assim.
Navega, deixa a tua marca em tudo o
que fazes, não ignores o teu instinto e abraça as convicções. Observa e
aprende, não sejas o primeiro a julgar. Sê leal a ti mesmo. Ambiciona mas não
arrumes os teus princípios. Estarei sempre contigo, mesmo quando estás longe.
Com muito amor,
Mãe.
(D Pseudoink)
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
(Com Fúria e Raiva, Sophia de Mello Breyner)
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
(Com Fúria e Raiva, Sophia de Mello Breyner)
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
HAPPY NEW YEAR !!!!!!!!
Quando penso em ano novo, ambições e
concretizações revisito a imagem do professor Keaton a sussurrar Carpe Diem aos seus discípulos.
Dado a conjuntura económica e financeira europeia partilho convosco minha resolução
para 2013, uma luz entre muitas num túnel que se prevê longo…
"Age saw two quiet children Go loving by at twilight, He knew not whether homeward, Or outward from the village, Or (chimes were ringing) churchward, He waited (they were strangers) Till they were out of hearing To bid them both be happy. "Be happy, happy, happy, And seize the day of pleasure." The age-long theme is Age's. 'Twas Age imposed on poems Their gather-roses burden To warn against the danger That overtaken lovers From being overflooded With happiness should have it. And yet not know they have it. But bid life seize the present? It lives less in the present Than in the future always, And less in both together Than in the past. The present Is too much for the senses, Too crowding, too confusing— Too present to imagine."(Carpe Diem, Robert Frost)
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Sala
Estava recostada com o livro
aberto pousado nas mãos apreciando da janela a brisa suave, a dança das folhas,
as árvores com vários tons de amarelos. Chamaste-me, pousei o livro no cadeirão
e fomos passear na praia antes do almoço; o mar estava indomável, magnânimo, a
cada passo os pés mergulhavam mais uma vez na areia. Comentei que o verão já
estava no fim enquanto casava os botões e reforçava o conforto da lã,
perguntei-te sobre o jantar e confirmaste as presenças. Nestes últimos dias
espelhavas uma tranquilidade típica dos anciãos, imperturbável pela sua
longevidade. Não sei onde vais buscar inabalável plenitude; por vezes
irritas-me tanto.
Pelas 18 começaram a chegar os
nossos amigos, ajudaste-me com os preparativos. O céu estava raiado de vermelho
enquanto se desenrolava a noite. O Outono teimava em apresentar-se, porém com o
grelhador e as cervejas no jardim o ambiente aqueceu. Tu regozijavas o peixe
que imponentemente ocupava toda a grelha e apreciavas os elogios, eu fui
mostrando o futuro quarto do Ismael. Quando estávamos no terraço a jantar eis
que a celebre pergunta é proferida “o nome do bebe”; grande comoção se levantou,
e, enquanto inúmeras justificações te foram apresentadas para me demover dessa
ideia, tu sorrias e os nossos olhares comunicaram. Como é que passados tantos
invernos ainda te amo como no primeiro? Exibes a tua expressão complacente
perante a minha inquietude e surpresa. No início da madrugada as estrelas ainda
brilhavam com nitidez e o sol começava a raiar, caminhámos até a praia,
sentamo-nos e enrolados em cobertores assistimos maravilhados ao espectáculo
celestial.
Lá tem de ser, comentei de sussurro,
um pequeno-almoço antes de dispersarem. Uma hora depois, finalmente sós
(suspirámos). Subimos as escadas para o nosso quarto. No final do mês seremos três.
Estou recostada com um livro
aberto pousado nas mãos. (d Pseudoink)
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Apelo
Apelo da minha facção idealista subjugada por mim e
aos que como eu se resignaram e desistiram:
Grita,
Grita pelas mulheres vergadas pelos maridos,
família, religião e politica;Grita pelos que vivem na miséria social e mental;
Grita pelas crianças exploradas, analfabetas e abandonadas;
Grita pelos sobreviventes e mortos por desgraças naturais;
Grita pelos indigentes, inadaptados e sós;
Grita pelos oprimidos, deprimidos e resignados;
Grita por nós, simples cidadãos que não temos poder e somos enganados pelos que o possuem;
AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH
Grita pelo fim da corrupção, manipulação dos
mercados, guerras, intolerância, violência gratuita, desigualdade mundial e de
tudo o que cause sofrimento aqueles que não têm meios de o combater;
Grita por equidade, pelo conhecimento e
escolaridade, pelos direitos das crianças e mulheres, pelo desarmamento nuclear
e mundial;
Debate-te por o mundo melhor, torna-te agente da
mudança, sê melhor… Recusa extremismos ou fundamentalismos, ouve, observa, reflecte,
aprende mas desperto, recusa tabuas rasas ou teoremas já resolvidos, partilha
ideias, sê humilde, ambiciona conhecer …
(d Pseudoink)
(d Pseudoink)
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
reflexões de quem não tem sono e nada produtivo em vista... (8)
O desaparecimento de determinadas entidades do
mundo como o conhecemos rasga a minha rotina diária, sinto pesar mesmo nunca
tendo estabelecido qualquer tipo de contacto físico com as pessoas em questão. É desconcertante
mas entristece-me. Embora pareça incongruente e fútil todas contribuíram para o que
sou hoje, participaram no meu amadurecimento, propiciaram momentos de reflexão.
Portanto com mágoa e sem vergonha afirmo que fiquei sentida com o
desaparecimento de Carlos Pinto Coelho. Miguel Portas, embora me diferencie das
suas convicções políticas apresentou-me o encanto da asia com culturas e
religiões diversas. Posteriormente, Bernardo Sassetti contribuiu para o
aperfeiçoamento do meu ouvido e despertou o meu insaciável interesse no jazz
português/internacional que tantos momentos de prazer e introspecção me
proporcionaram.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
(Presídio, David Mourão-Ferreira)
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