quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
(Com Fúria e Raiva, Sophia de Mello Breyner)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

HAPPY NEW YEAR !!!!!!!!


Quando penso em ano novo, ambições e concretizações revisito a imagem do professor Keaton a sussurrar Carpe Diem aos seus discípulos. Dado a conjuntura económica e financeira europeia partilho convosco minha resolução para 2013, uma luz entre muitas num túnel que se prevê longo…

"Age saw two quiet children 
Go loving by at twilight, 
He knew not whether homeward, 
Or outward from the village, 
Or (chimes were ringing) churchward, 
He waited (they were strangers) 
Till they were out of hearing 
To bid them both be happy. 
"Be happy, happy, happy, 
And seize the day of pleasure."
The age-long theme is Age's. 
'Twas Age imposed on poems 
Their gather-roses burden 
To warn against the danger 
That overtaken lovers 
From being overflooded 
With happiness should have it. 
And yet not know they have it. 
But bid life seize the present? 
It lives less in the present 
Than in the future always, 
And less in both together 
Than in the past. The present 
Is too much for the senses, 
Too crowding, too confusing—
Too present to imagine."
(Carpe Diem, Robert Frost)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sala

 

Estava recostada com o livro aberto pousado nas mãos apreciando da janela a brisa suave, a dança das folhas, as árvores com vários tons de amarelos. Chamaste-me, pousei o livro no cadeirão e fomos passear na praia antes do almoço; o mar estava indomável, magnânimo, a cada passo os pés mergulhavam mais uma vez na areia. Comentei que o verão já estava no fim enquanto casava os botões e reforçava o conforto da lã, perguntei-te sobre o jantar e confirmaste as presenças. Nestes últimos dias espelhavas uma tranquilidade típica dos anciãos, imperturbável pela sua longevidade. Não sei onde vais buscar inabalável plenitude; por vezes irritas-me tanto. 
Pelas 18 começaram a chegar os nossos amigos, ajudaste-me com os preparativos. O céu estava raiado de vermelho enquanto se desenrolava a noite. O Outono teimava em apresentar-se, porém com o grelhador e as cervejas no jardim o ambiente aqueceu. Tu regozijavas o peixe que imponentemente ocupava toda a grelha e apreciavas os elogios, eu fui mostrando o futuro quarto do Ismael. Quando estávamos no terraço a jantar eis que a celebre pergunta é proferida “o nome do bebe”; grande comoção se levantou, e, enquanto inúmeras justificações te foram apresentadas para me demover dessa ideia, tu sorrias e os nossos olhares comunicaram. Como é que passados tantos invernos ainda te amo como no primeiro? Exibes a tua expressão complacente perante a minha inquietude e surpresa. No início da madrugada as estrelas ainda brilhavam com nitidez e o sol começava a raiar, caminhámos até a praia, sentamo-nos e enrolados em cobertores assistimos maravilhados ao espectáculo celestial.
Lá tem de ser, comentei de sussurro, um pequeno-almoço antes de dispersarem. Uma hora depois, finalmente sós (suspirámos). Subimos as escadas para o nosso quarto. No final do mês seremos três.
Estou recostada com um livro aberto pousado nas mãos.  (d Pseudoink)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Apelo


Apelo da minha facção idealista subjugada por mim e aos que como eu se resignaram e desistiram:

Grita,
Grita pelas mulheres vergadas pelos maridos, família, religião e politica;
Grita pelos que vivem na miséria social e mental;
Grita pelas crianças exploradas, analfabetas e abandonadas;
Grita pelos sobreviventes e mortos por desgraças naturais;
Grita pelos indigentes, inadaptados e sós;
Grita pelos oprimidos, deprimidos e resignados;
Grita por nós, simples cidadãos que não temos poder e somos enganados pelos que o possuem;

AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH

Grita pelo fim da corrupção, manipulação dos mercados, guerras, intolerância, violência gratuita, desigualdade mundial e de tudo o que cause sofrimento aqueles que não têm meios de o combater;

Grita por equidade, pelo conhecimento e escolaridade, pelos direitos das crianças e mulheres, pelo desarmamento nuclear e mundial;

Debate-te por o mundo melhor, torna-te agente da mudança, sê melhor… Recusa extremismos ou fundamentalismos, ouve, observa, reflecte, aprende mas desperto, recusa tabuas rasas ou teoremas já resolvidos, partilha ideias, sê humilde, ambiciona conhecer …
(d Pseudoink)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

reflexões de quem não tem sono e nada produtivo em vista... (8)


O desaparecimento de determinadas entidades do mundo como o conhecemos rasga a minha rotina diária, sinto pesar mesmo nunca tendo estabelecido qualquer tipo de contacto físico com as pessoas em questão. É desconcertante mas entristece-me. Embora pareça incongruente e fútil todas contribuíram para o que sou hoje, participaram no meu amadurecimento, propiciaram momentos de reflexão. Portanto com mágoa e sem vergonha afirmo que fiquei sentida com o desaparecimento de Carlos Pinto Coelho. Miguel Portas, embora me diferencie das suas convicções políticas apresentou-me o encanto da asia com culturas e religiões diversas. Posteriormente, Bernardo Sassetti contribuiu para o aperfeiçoamento do meu ouvido e despertou o meu insaciável interesse no jazz português/internacional que tantos momentos de prazer e introspecção me proporcionaram.

quinta-feira, 26 de julho de 2012


Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

                              (Presídio, David Mourão-Ferreira)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O lado selvagem (jon krakauer)






Onde alguns vêem cobardia eu vejo coragem,
Onde uns vêem estupidez eu vejo desafio,
Uns vêem fugir eu vejo abraçar a vida,
Uns vêem egotismo eu vejo crescer, concretização,
Uns vêem idealismo eu vejo um futuro,
Uns vêm inadaptado eu vejo aperfeiçoamento, evolução;
É impossivel ser-se indeferente ao estoicismo e integridade na construção de uma identidade numa civilização preenchida por lugares comuns. Recusar os modelos de vida disponíveis... Sonho pisar esse chão. É o que distingue os homens dos outros… os outros sonham. (d Pseudoink)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno
E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.
Tu disparas contra a luz.
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.
Há tantos meses que não chove – reparaste?
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,
Nós não queremos disparar.
(Renshi.eu, Felipa Leal)