domingo, 24 de julho de 2011

A grande realização parece incompleta,
mas a sua utilidade nunca se esgota.
A grande plenitude parece vazia,
mas a sua utilidade nunca empobrece.

A grande rectidão parece flectida
A grande habilidade parece desajeitada
A grande eloquência parece gaguejar.

A agitação vence o frio
A serenidade vence o calor.
A limpidez da serenidade é a perfeição do mundo.
                                              (Tao Te King, Lao Tse)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Reflexo

E ela continua a ouvir uma voz ensurdecedora vinda do mais íntimo do seu ser: fugir, tentar outra vez, é isso… depois o mundo nas tuas mãos. Olhando-se no espelho, expressando desespero e angustia pergunta “quando cessa a constante insatisfação”, a busca contínua torna-se exaustiva - pensa; “estou cansada” e repete mais duas vezes esta expressão, inclina a cabeça até os olhos fixarem o chão de madeira irregular.
Desloca as suas mãos com a pele ressequida e pequenos golpes nos dedos em direcção à face como se não a reconhece-se, no sentido de identificar o ser que estava frente ao espelho; a respiração torna-se ofegante. Permanece imóvel, procura apaziguar o tumulto de sentimentos revisitados, tenta aceitar o seu reflexo, tenta aceitar-se. Passam 5, 10, 15, 20 minutos. Desvia-se, com uma espécie de resignação, inclinando cada vez menos esporadicamente a cabeça para o espelho.
Este cenário repete-se por semanas, meses, anos… E vai saltitando de registo para registo, sem assentar, sem construir, as desculpas estão mais que gastas contudo ainda encaixam num puzzle cheio de inconsistências…     
(d Trintona)

quinta-feira, 30 de junho de 2011


Os Navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto os navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
Partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.


Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram-se nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
              (As palavras interditas, Eugénio de Andrade)

terça-feira, 21 de junho de 2011

reflexões de quem não tem sono e nada produtivo em vista... (4)

Todos os dias somos bombardeados - pela televisão, jogos, brinquedos, revistas, rádio, publicidade exposta na rua, metro e afins sobre os padrões pelo qual a nossa vida se deve reger, como devemos ser, aparecer e estar.
Desde crianças que os media nos ditam como devemos viver e o que é o sucesso social. Perante esta realidade determinados grupos e indivíduos conseguem a serenidade, felicidade e sucesso pessoal desafiando a sociedade vigente, contrariando os estereótipos actuais conseguem estar integrados sem se imiscuir na sociedade. Contudo esta harmonia não é contínua ou permanente, mas um equilíbrio frágil que é frequentemente recalibrado. É uma missão complexa romper as amarras e construir o nosso pequeno mundo, tem os seus riscos e a rede de suporte é frágil tornando a queda uma probabilidade.
O equilíbrio acima referido é um tanto ou quanto espinhoso, é um trabalho árduo a construção de um lugar onde os moldes do êxito repetidos desde que existimos como cidadãos podem ser contornados. Este espaço de auto-reconhecimento por vezes demora e a inquietação, isolamento e angústia é diagnosticada e catalogada com o nome de uma doença qualquer de um grau qualquer presente num protocolo de diagnósticos psicológicos/psiquiátricos. E começa uma listagem de medicação. Com um rótulo tudo está explicado, entendido e a sociedade pode continuar. A infelicidade é um preço a pagar, sem stresse porque há sempre alguém que lucra com a desgraça alheia. E por vezes, com a adversidade um ou outro génio é revelado e adorado depois de sepultado.
(d Trintona)

quarta-feira, 8 de junho de 2011


Que saudades... quando pirralha idealizava ser e viver como o Huckleberry Finn com o seu código de honra/amizade muito particular